Dom Alberto Taveira Corrêa
ARCEBISPO METROPOLITANO DE BELÉM
Com muita frequência nos deparamos com os resultados de pesquisas
destinadas a compor estatísticas que avaliam as tendências de nosso
tempo, nas diversas áreas da vida. Trata-se de uma atividade
inteligente, com metodologia precisa, cada vez mais apurada. Durante a
semana que passou, já estavam à disposição levantamentos a respeito do
que os eleitores levarão em conta nas próximas eleições municipais. Os
comerciantes estão sempre
atentos
às tendências de mercado, os meios de comunicação conferem sua
audiência, e daí por diante. Também as estatísticas religiosas nos
interessam! Queremos saber com quem estamos tratando, como as pessoas
recebem nossas mensagens, o efeito prático de nossa pregação e daí por
diante. É que todos querem saber em que chão estão pisando!
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Há alguns dias, veio-me um desejo diferente, o de tornar-me, como um
texto lido há alguns anos, um contador de estrelas, olhando para o
alto, ao invés de olhar apenas para o chão, sonhar com o Céu e não
apenas constatar a realidade que nos circunda. E redescobri a oração do
Pai nosso, tão antiga quanto nova e revolucionária. Para rezá-lo, veio
espontâneo o sinal da cruz. Antes do Pai nosso eu disse “Em nome do Pai e
do Filho e do Espírito Santo”. Vi que traçava, junto com as palavras, a
cruz de Cristo sobre mim. Pareceu-me ver o universo aberto de forma
diferente, com uma haste voltada para o alto, para o infinito. A outra
abraçavao mundo. O contador de |
estrelas começou a sonhar, mas com os pés no chão!
Vi que existe no alto um modelo para caminhar na terra. De fato, há um
“plano” pensado desde toda a eternidade, há um sonho de Deus para a
humanidade. Seu nome é santificado porque as pessoas são chamadas a
viverem voltadas para fora de si, abertas para amar e não dobradas sobre
os próprios interesses. Como sou livre, incomodou-me um pouco pensar
que no desenho do projeto de Deus está escrito que é para fazer a sua
vontade, até que entendi que numa reunião de amor, que dura toda a
eternidade, a família de Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo,
tramaram a estratégia da felicidade. Pareceu-me ver, olhando para as
estrelas iluminadas no horizonte da fé, que é mesmo melhor fazer o que
agrada a Deus, pois Ele é infinitamente maior do que todas as mentes
humanas.
E foi então possível rezar de novo “venha a nós o vosso Reino”,
constatando que é melhor implantar o Reino que precede e pode iluminar
todos os reinos do mundo. Se eu tivesse em mãos todas as constituições
de todos os países, e a elas ajuntasse a avalanche de leis que os homens
e mulheres elaboram a cada dia, no afã de encontrar saídas para os
problemas de nosso tempo, descobriria nelas os rastros daquele “plano”,
porque sei que estão plantadas por aí muitas sementes do Verbo de Deus. É
que acredito na ação misteriosa e verdadeira do Espírito Santo, que
planta o bem onde nós menos esperamos.
Nas estrelas do Céu de Deus, vi que estava escrita a lei da
providência. Pão do Céu e Pão da terra, pão compartilhado e dividido. Na
oração, o sonho de que todos acolham o alimento do Céu e aprendam a lei
divina da liberalidade, para que não haja fome nesta terra. Foi bom
constatar que a natureza que Deus nos deu foi pensada com inteligência.
Não faltam recursos nem comida, mas falta partilha! Quem se volta para o
alto descobre a receita da despensa e da cozinha de Deus!
O Céu de Deus, a casa da Santíssima Trindade, é amor eterno. Quando
desceu a terra, este amor assumiu a face da misericórdia. Que ousadia e
que risco corri ao dizer “perdoai-nos assim como nós perdoamos a quem
nos tem ofendido”. Viramos o jogo? O Céu e o Pai do Céu se submetem à
nossa capacidade de perdoar? É que o plano de Deus nos introduziu num
verdadeiro jogo de amor. Numa nova “escada de Jacó” (Cf. Gn 28,12 e Jo
1,51), o Céu e Terra partilham seus dons, ainda que o Céu seja sempre o
vencedor, pois a vitória que vence o mundo é a fé!
Para chegar a tais alturas, aquele que nos livra do mal nos liberte
também da tentação de olhar somente para baixo, nivelando o mundo ao
rodapé das constatações frias. Deus tem a palavra e Ele é mais
inteligente do que minha pobre percepção da vida. Olhando para Ele, que é
família e não solidão, sonhei com o mundo “passado a limpo”, como foi
pensado para a felicidade de todas as criaturas de todos os tempos.
Sonhei tanto que rezei assim: “Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a
Palavra da verdade e o Espírito santificador, revelastes vosso inefável
mistério. Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória
da Trindade e adoremos a Unidade onipotente”. E disse “Amém”. E sonhei
de novo toda a humanidade vivendo o Céu, na terra e na eternidade!