quinta-feira, 31 de maio de 2012

Catequese de Bento XVI: Oração nas Cartas de Paulo (3) – 30/05/2012

 http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=286358

Boletim da Santa Sé
(Tradução de Nicole Melhado - equipe CN Notícias)



CATEQUESE
Praça de São Pedro
Vaticano

Quarta-feira, 30 de maio de 2012

Queridos irmãos e irmãs,

Nestas catequeses estamos meditando a oração nas cartas de São Paulo e buscamos ver a oração cristã como um verdadeiro e pessoal encontro com Deus Pai, em Cristo, mediante o Espírito Santo. Hoje, neste encontro, entram em diálogo o “sim” fiel de Deus e o “amém” confiante dos crentes. E gostaria de destacar esta dinâmica, apoiando-me sobre a Segunda Carta aos Coríntios.

São Paulo envia esta apaixonada Carta a uma Igreja que mais de uma vez colocou em discussão seu apostolado, e ele abre o seu coração porque os destinatários são assegurados sobre a fidelidade a Cristo e ao Evangelho.

Esta Segunda Carta aos Coríntios inicia com uma das orações de benção mais altas do Novo Testamento. Soa assim: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das Misericórdias, Deus de toda a consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações, para que, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus, possamos consolar os que estão em qualquer angustia!” (2Cor 1,3-4).

Então, Paulo vive em grande tribulação, são muitas as dificuldades e as aflições que teve que atravessar, mas nunca cedeu ao desânimo, sustentado pela graça e pela proximidade com o Senhor Jesus Cristo, pelo qual se tornou apóstolo e testemunha da entrega de toda própria existência em Suas mãos.  

Justamente por isso, Paulo inicia esta Carta com uma oração de benção e de agradecimento a Deus, porque não houve momento algum de sua vida de apóstolo de Cristo no qual tenha sentido menos sustentado pelo Pai misericordioso, pelo Deus de toda consolação. Sofreu terrivelmente, disse ele mesmo nesta Carta, mas em todas aquelas situações, onde parecia não abrir-se outra estrada, recebeu consolação e conforto de Deus.

Para anunciar Cristo, logo também sofreu perseguições, até ser trancado na prisão, mas se sentiu sempre interiormente livre, animado pela presença de Cristo e ansioso para anunciar a palavra de esperança do Evangelho. Da prisão, assim escreve a Timóteo, seu fiel colaborador. Ele da cadeia escreve: “A palavra de Deus, esta não se deixa acorrentar. Pelo que tudo suporta por amor dos escolhidos, para que também eles consigam a salvação em Jesus Cristo, com a glória eterna” (2Tm 2,9b-10).

Em seu sofrimento por Cristo, ele experimenta a consolação de Deus. Escreve: “à medida que em nós crescem os sofrimentos de Cristo, crescem também por Cristo as nossas consolações” (2Cor 1,5).

Na oração de benção que introduz a Segunda Carta aos Coríntios, predomina em seguida, ao lado do tema das aflições, o tema da consolação, que não deve ser interpretado somente como um simples conforto, mas, sobretudo, como encorajamento e exortação para não deixar-se vencer pela tribulação e pela dificuldade.

O convite é para viver cada situação unidos a Cristo, que carrega sobre si todo sofrimento e pecado do mundo para levar luz, esperança e redenção.
E assim, Jesus nos torna capazes de consolar aqueles que estão à nossa volta e que se encontram em todo tipo de aflição.
A profunda união com Cristo na oração, a confiança em sua presença, conduzem à disponibilidade de partilhar os sofrimentos e as aflições dos irmãos. Escreve Paulo: “Quem é fraco, que eu não seja fraco? Quem sofre escândalo, que eu não me consuma de dor?” (2Cor 11,29). Estas partilhas não nascem de uma simples benevolência, nem mesmo da generosidade humana ou do espírito de altruísmo, mas surge do consolo do Senhor, do sustento inabalável da “extraordinária potência que vem de Deus e não de nós” (2Cor 4,7).

Queridos irmãos e irmãs, a nossa vida e o nosso caminho cristão são marcados muitas vezes pela dificuldade, incompreensão e sofrimento. Todos nós sabemos. No relacionamento fiel com o Senhor, em nossa oração constante, cotidiana, podemos também nós, concretamente, sentir a consolação que vem de Deus. E isso reforça a nossa fé, pois nos faz experimentar de modo concreto o “sim” de Deus ao homem, a nós, a mim, em Cristo; faz sentir a fidelidade do Seu amor, que chega até a doação de Seu Filho sobre a Cruz.

Afirma São Paulo: “O Filho de Deus, Jesus Cristo, que nós, Silvano, Timóteo e eu, vos temos anunciado não foi ‘sim’ e depois ‘não’, mas sempre foi ‘sim’. Porque todas as promessas de Deus são ‘sim’ em Jesus. Por isso, é por ele que nós dizemos ‘Amém’ à glória de Deus” (2Cor 1,19-20).

O “sim” de Deus não é reduzido pela metade, não está entre o “sim” e o “não”, mas é um simples e seguro “sim”. E a este “sim” nós respondemos com o nosso “sim”, com o nosso “amém” e, assim, estamos seguros no “sim” de Deus.

A fé não é primariamente uma ação humana, mas dom gratuito de Deus, que se enraíza na sua fidelidade, no seu “sim”, que nos faz compreender como viver a nossa existência amando Ele e os irmãos. Toda a história de salvação é um progressivo revelar-se desta fidelidade de Deus, apesar das nossas infidelidades e nossas negações, na certeza de que “os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis”, como declara o Apóstolo na Carta aos Romanos (11,29).

Queridos irmãos e irmãs, o modo de agir de Deus – bem diferente do nosso – nos dá consolação, força e esperança, porque Deus não retira o seu “sim”. Diante dos conflitos nas relações humanas, às vezes também familiares, nós somos levados a perseverar no amor gratuito, que requer empenho e sacrifício. Em vez disso, Deus não se cansa de nós, não se cansa nunca de ter paciência conosco e com sua imensa misericórdia nos precede sempre, vem ao nosso encontro por primeiro, é absolutamente confiável este seu “sim”. Na Cruz, Ele nos mostra a medida do seu amor, que não se calcula, não tem tamanho.

São Paulo, na Carta a Tito escreve: “Mas um dia apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens” (Tit 3,4). E por isso, este “sim” se renova a cada dia “quem nos confirma a nós e a vós em Cristo, e nos consagrou, é Deus. Ele nos marcou com o seu selo e deu aos nossos corações o penhor do Espírito” (2Cor 1,21b-22).

É, de fato, o Espírito Santo que torna constantemente presente e vivo o “sim” de Deus em Jesus Cristo e cria em nosso coração o desejo de segui-lo para entrar totalmente, um dia, no seu amor, quando receberemos uma moradia não construída por mãos humanas nos Céus.

Não existe alguém que não seja alcançado ou convidado a este amor fiel, capaz de esperar, mesmo aqueles que continuamente respondem com o “não” de rejeição ou de coração endurecido. Deus nos espera, nos busca sempre, quer acolher-nos na comunhão consigo para doar a cada um de nós a plenitude de vida, de esperança e de paz.

Sobre o “sim” fiel de Deus, une-se o “amém” da Igreja que ressoa em cada ação da liturgia: “Amém” é a resposta da fé que conclui sempre a nossa oração pessoal e comunitária. E que expressa o nosso “sim” à iniciativa de Deus. Geralmente, respondemos por hábito com o nosso “Amém” na oração, sem compreender seu significado profundo.

Este termo deriva do ‘aman’ que, em hebraico e em aramaico, significa “estabilizar”, “consolidar” e, consequentemente, “estar certo”, “dizer a verdade”. Se olharamos na Sagrada Escritura, vemos que este “amém” é dito no fim dos Salmos de benção e louvor, como por exemplo, no Salmo 41: “Vós, porém, me conservareis incólume, e na vossa presença me poreis para sempre. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, de eternidade em eternidade! Assim seja! Amém!” (vv. 13-14).

Ou expressa adesão a Deus, no momento em que o povo de Israel retorna cheio de alegria do exílio babilônico e diz o seu “sim”, o seu “amém” a Deus e a sua Lei. No Livro de Neemias se narra que, depois deste retorno, “Esdras abriu o livro (da Lei) à vista do povo todo; ele estava, com efeito, elevado acima da multidão. Quando o escriba abriu o livro, todo povo levantou-se. Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus; ao que todo o povo respondeu levantando as mãos: ‘Amém! Amém!’”(Nee 8,5-6).

Desde o início, portanto, o “amém” da liturgia judaica se tornou o “amém” das primeiras comunidades cristãs. E o livro da liturgia cristã por excelência, o Apocalipse de São João, inicia com o “amém” da Igreja: “Àquele que nos ama, que nos lavou de nossos pecados no seu sangue e que fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e seu Pai, glória e poder pelos séculos e séculos! Amém” (Apo 1,5b-6). Assim no primeiro capítulo do Apocalipse. E o mesmo livro é concluído com a invocação “Amém. Vem, Senhor Jesus!” (Apo 22,21).

Queridos amigos, a oração é o encontro com uma Pessoa viva a se escutar e com quem dialogar; é o encontro com Deus que renova sua fidelidade inabalável, o seu “sim” ao homem, a cada um de nós, para doar-nos a sua consolação em meio às tempestades da vida e nos fazer viver, unidos a Ele, uma existência plena de alegria e bem, que encontrará o seu cumprimento na vida eterna.

Em nossa oração, somos chamados a dizer “sim” a Deus, a responder com este “amém” de adesão, de fidelidade a Ele de toda nossa vida. Esta fidelidade não podemos jamais conquistar com as nossas forças, mas é fruto do nosso empenho cotidiano; essa vem de Deus e é fundada sobre o “sim” de Cristo, que afirma: Meu alimento é fazer a vontade do Pai (cfr João 4,34).

É neste "sim" que devemos entrar, entrar neste “sim” de Cristo, na adesão à vontade de Deus, para conseguir dizer, como São Paulo, que não somos mais nós a viver, mas é o próprio Cristo que vive em nós. Então, o “amém” da nossa oração pessoal e comunitária envolverá e transformará toda a nossa vida, uma vida de consolação de Deus, uma vida imersa no Amor eterno e inabalável. Obrigado.

Por amor a Ele - Dom Henrique


Na Epístola aos Romanos, o Apóstolo diz, falando de Cristo Jesus: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, os perigos, a espada? Segundo está escrito: ‘Por Sua causa somos postos à morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro’. Mas, em tudo isto, somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou” (Rm 8,35-37).
Gostaria de partilhar com você, Irmão de fé, alguns pensamentos sobre este texto das Escrituras...
Observe como o princípio de tudo, a raiz mesma da nossa vida como cristãos é o amor de Cristo. Dele jamais devemos nos separar. Vejo tantos irmãos nos blogs, no Facebook, no twitter, que demonstram amor à Igreja, à sua história, à sua liturgia... Vejo tantos jovens encantados com o ser-católico... Tudo isto alegra o coração e é belo. Mas, ainda não é o núcleo, o essencial de quem realmente deseja ser cristão católico!
O essencial é o amor a Cristo Jesus, a paixão por Ele, um amor, uma paixão que nos vão fazendo inseparáveis Dele. É isto – e só isto – que nos mantém na fé e na verdadeira adesão a tudo quanto é cristão e católico. Amor de Cristo! Ser capaz de escutá-Lo, ser capaz de perder tempo com Ele na oração, ser apaixonado pela Sua palavra na Escritura, procurar viver a vida alicerçados incondicionalmente nos Seus preceitos, servi-Lo nos irmãos, sobretudo nos que mais são pobres das pobrezas deste mundo, ter saudades de estar com Ele nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, desejar viver com Ele e padecer por Ele, com Ele e Nele vivenciando serenamente todas as dores, apertos e dificuldades da vida. O apaixonado por Cristo não se envergonha de que saibam que ele é Dele; pelo contrário, por todos os meios deseja gritar ao mundo que tem um amor no seu coração, e esse amor é Jesus! Percebe, meu Irmão, que este é o núcleo de ser cristão, ser padre, ser religioso, ser bispo, ser papa? Sem isto, nenhum cristianismo é autêntico e nenhuma fé católica é verdadeira!
Quando fazemos tal experiência do amor a Cristo nesta vida, tudo ganha novo sentido e já não queremos outra coisa que viver no amor de Jesus.
O mundo nos verá como tontos, idiotas e alienados... Mas, quando estamos abrasados neste amor, inebriados nesta doçura de ternura por Jesus, que nos importa o que pensam ou deixam de pensar de nós? Quem, pois, nos poderá separar do amor de Cristo quando experimentamos o gostinho de um amor assim? O coração o deseja e deseja ser só Dele, sem divisão, sem partilha. Dele, de modo absoluto, para dizer-Lhe com cada fibra: “Eu Te amo!” Sem esse amor, de nada adiantam obras e projetos, palavras e estudos; com esse amor, tudo se torna precioso e apto para o Reino de Deus.
Eis o motivo de São Paulo, que viveu um amor assim, desafiar: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, os perigos, a espada?” Venha o que vier, o amor de Cristo compensa e em nós vai se tornando sempre mais recompensa superabundante!
Irmão, não tenha medo de padecer por Cristo! Não receie nunca as incompreensões, as tentações, as injustiças, as solidões, as privações, as próprias fraquezas, as incertezas, se tudo isto for por amor a Nosso Senhor! Eis o que diz a Escritura, nos prevenindo: “Por Sua causa somos postos à morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Pense bem: nossa adesão a Cristo comportará sempre renúncia, sofrimento, incompreensão, tentação de desânimo, momentos de trevas... É por causa Dele mesmo: “Por Sua causa!” Que felicidade (muitas vezes não sentida, mas vivida no profundo d’alma) poder dizer, triste, choroso, fragilizado, tentado: “É por Tua causa, Senhor! Está doendo, estou sofrendo, sinto-me no limite de minhas forças, mas permaneço, persisto, persevero porque é por Tua causa!” Diga-me, meu querido Irmão de caminho: como se pode ser cristão fugindo disso? Que amor é esse que não suporta sofrer por causa de quem se ama? “É por Tua causa!” Ó palavra difícil; ó palavra tremenda, ó palavra consoladora, que nos enche de força! Por causa Dele ser colocado à morte para nós mesmos e nossos desejos e nossas paixões e nossas comodidades e nossas seguranças... Ser colocados à morte! Como é difícil! Ser como ovelhas levadas ao matadouro – várias vezes pelos próprios irmãos na fé e até por quem nos deveria dar o exemplo de obediência e fidelidade, de amor à Igreja e adesão à sua doutrina e disciplina... E, no entanto, quando o nosso coração está cheio do amor de Jesus, que serenidade, que força, que estranha e entranhada paz: “É por Tua causa! Basta-me!” Se temos o amor Dele, se estamos unidos a Ele pelo laço do amor, “em tudo isto somos mais que vencedores, graças Àquele que nos amou”.
Penso agora em tantos jovens irmãos meus, padres, seminaristas, jovens religiosos, que enfrentam dura batalha por desejarem ser totalmente de Cristo e da Sua Igreja, por amarem o Santo Padre, por desejarem ser fieis realmente ao ser cristão e ser católicos na doutrina, na liturgia, na prática da virtude, na observância da disciplina eclesiástica... Não tenham medo, não desistam, não sejam covardes: se o sofrimento é por causa Dele, então é também prova certa de predileção Dele, é sinal seguro de que se está seguindo os Seus passos e pagando-se o preço da fidelidade! Mas, vejam: tudo isto tem que ser por amor entranhado a Cristo! É Ele o único necessário, é Ele a fonte de todo bem, é Ele quem farta nosso coração de paz e alegria, é Ele o sentido último do nosso ser cristão, ser católico, ser fiel; é Ele a certeza da nossa vida!
Permaneçam alicerçados Nele, meus amados irmãos e rezemos uns pelos outros para sermos fieis ao Seu amor até o fim, até o abraço final, até descansarmos para sempre no Seu coração bendito!